sábado, 1 de dezembro de 2018

Carta a um Jovem Cristão que faz sexo com sua namorada.

Meu caro Ricardo,

Ontem estive pregando em sua igreja e tive a oportunidade de rever João, nosso amigo comum. Não lhe encontrei. João me disse que você e a Raquel, sua namorada, tinham saído com a turma da mocidade para um acampamento no fim de semana e que só regressariam nessa segunda bem cedo.

Saí com o João para comer pizza após o culto e falamos sobre você. João abriu o coração. Ele está muito preocupado com você, desde que você disse a ele que tem ido com Raquel para motéis da cidade e às vezes até mesmo depois do culto de jovens no sábado à noite. Ele falou que já teve várias conversas com você mas que você tem argumentado defendendo o sexo antes do casamento como se fosse normal e que pretende casar com Raquel quando terminarem a faculdade.

Ele pediu minha ajuda, para que eu falasse com você, e me autorizou a mencionar nossa conversa na pizzaria. Relutei, pois acho que é o pastor de sua igreja que deve tratar desse assunto. Você e a Raquel, afinal, são membros comungantes dessa igreja e estão debaixo da orientação espiritual dela. Mas, João me disse que o pastor faz de conta que não sabe que essas coisas estão acontecendo na mocidade da igreja. Como sou amigo da sua família fazem muitos anos, desde que vocês frequentaram minha igreja em São Paulo, resolvi, então, escrever para você sobre esse assunto, tendo como base os argumentos que você usou diante de João para justificar sua ida a motéis com a Raquel.

Se entendi direito, você argumenta que não há nada na Bíblia que proíba sexo antes do casamento. É verdade que não há uma passagem bíblica que diga “não farás sexo antes do casamento;” mas existem dezenas de outras que expressam essa verdade com outras palavras e de outras maneiras. Podemos começar com aquelas que pressupõem o casamento como sendo o procedimento padrão, legal e estabelecido por Deus para pessoas que desejam viver juntas (veja Mateus 9:15; 24:38; Lucas 12:36; 14:8; João 2:1-2; 1Coríntios 7:9,28,39), aquelas que abençoam o casamento (Hebreus 13:4) e aquelas que se referem ao divórcio – que é o término oficial do casamento – como algo que Deus aborrece (veja Malaquias 3:16; Mateus 5:31-32).

Podemos incluir ainda aquelas passagens contra os que proíbem o casamento (1Timóteo 4:3) e as outras que condenam o adultério, a fornicação e a prostituição (veja Mateus 5:28,32; 15:19; João 8:3; 1Coríntios 7:2; 6:9; Gálatas 5:19; Efésios 5:3-5; Colossenses 3:5; 1Tessalonicenses 4:3-5; 1Timóteo 1:10; Hebreus 13:4; Apocalipse 21:8; 22:15). Qual é o referencial que nos possibilita caracterizar esses comportamentos como desvios, impureza e pecado? O casamento, naturalmente. Adultério, prostituição e fornicação, embora tendo nuances diferentes, têm em comum o fato de que são relações sexuais praticadas fora do casamento. Se o casamento, que implica num compromisso formal e legal entre um homem e uma mulher, não fosse a situação normal onde o sexo pode ser desfrutado de maneira legítima, como se poderia caracterizar como desvio o adultério, a fornicação ou a prostituição? A Bíblia considera essas coisas como pecado e coloca os que praticam a impureza sexual e a imoralidade debaixo da condenação de Deus – a menos que se arrependam, é claro, e mudem de vida.

Você argumenta também que o casamento é uma conveniência humana e que muda de cultura para cultura. Bom, é certo que o casamento tem um caráter social, cultural e pessoal. Todavia, do ponto de vista bíblico, não se pode esquecer que foi Deus quem criou o homem e a mulher, que os juntou no jardim, e disse que seriam uma só carne, dando-lhes a responsabilidade de constituir família e dominar o mundo. O casamento é uma instituição divina a ser realizada pelas sociedades humanas. Embora as culturas sejam distintas, e os rituais e procedimentos dos casamentos sejam distintos, do ponto de vista bíblico o casamento implica em reconhecimento legal daquela união por quem de direito, trazendo implicações para a criação e tutela dos filhos, sustento da casa e também responsabilidades e consequências em caso de separação e repúdio. Quando duas pessoas resolvem ir morar juntas como se fossem casadas, essa decisão não faz delas pessoas casadas diante de Deus – mas (desculpe a franqueza), pessoas que estão vivendo em imoralidade sexual.

É verdade que a legislação de muitos países tem cada vez mais reconhecido as chamadas uniões estáveis. É uma triste constatação que o casamento está cada vez mais sendo desvalorizado na sociedade moderna ocidental. Todavia, esses movimentos no mundo e na cultura não são a bússola pela qual a Igreja determina seu norte – e sim a Palavra de Deus. Em muitas culturas a legislação tem sancionado coisas que estão em contradição com os valores bíblicos, como aborto, eutanásia, uniões homossexuais, uso de drogas, etc. A Igreja deve ter uma postura crítica da cultura, tendo como referencial a Palavra de Deus.

O João me disse ainda que você considera que o mais importante é o amor e a fidelidade, e que argumentou que tem muita gente casada mas infeliz e infiel para com o cônjuge. Ricardo, é um jogo perigoso tentar justificar um erro com outro. Gente casada que é infiel não serve de desculpas para quem quer viver com outra pessoa sem se casar com ela. Além do mais, como pode existir o conceito de fidelidade numa união que não tem caráter oficial nem legal, e que não teve juramentos solenes feitos diante de Deus e das autoridades constituídas? Mesmo que você e sua namorada façam uma “cerimônia” particular onde só vocês dois estão presentes e onde se casem a si mesmos diante de Deus – qual a validade disso? As promessas de fidelidade trocadas por pessoas não casadas têm tanto valor quanto um contrato de gaveta. Lembre inclusive que não é a Igreja que casa, e sim o Estado. Naqueles casamentos religiosos com efeito civil, o pastor ou padre está agindo com procuração do juiz.

Não posso deixar de mencionar aqui que na Bíblia o casamento é constantemente referido como uma aliança (veja Ezequiel 16:59-63). Deus é testemunha dessa aliança feita no casamento, a qual também é chamada de “aliança de nossos pais”, uma referência ao caráter público da mesma (não deixe de ler Malaquias 2:10-16).

Não fiquei nem um pouco surpreso com seu outro argumento para fazer sexo com sua namorada, que foi “é importante conhecer bem a pessoa antes do casamento”. Já ouvi esse argumento dezenas de vezes. E sempre o considerei uma burrice – mais uma vez, desculpe a franqueza. Em que sentido ter relações sexuais com sua namorada vai lhe dar um conhecimento dela que servirá para determinar se o casamento vai dar certo ou não? Embora o sexo seja uma parte muito importante do casamento, o que faz um casamento funcionar são os relacionamentos pessoais, a tolerância, a compreensão, a renúncia, o amor, a entrega, o compartilhar… você pode descobrir antes do casamento que sua namorada é muito boa de cama, mas não é o desempenho sexual de vocês que vai manter ou salvar seu casamento. Esse argumento parte de um equívoco fundamental com relação à natureza do casamento e no fim nada mais é que uma desculpa tola para comerem a sobremesa antes do almoço.

Agora, o pior argumento que ouvi do João foi que você disse “a graça de Deus tolera esse comportamento.” Acho esse o pior argumento porque ele revela uma coisa séria em seu pensamento, que é tomar a graça de Deus como desculpa para um comportamento imoral. Esse sempre foi o argumento dos libertinos ao longo da história da igreja. O escritor bíblico Judas, irmão de Tiago, enfrentou os libertinos de sua época chamando-os de “homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Judas 4). Esse é o caminho de Balaão “o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição” (Apocalipse 2:14). É a doutrina da prostituta-profetisa Jezabel, que seduzia os cristão “a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Apocalipse 2:20) e a conhecer “as coisas profundas de Satanás” (Apocalipse 2:24).

Como seu amigo e pastor, permita-me exortá-lo a cair fora dessa maneira libertina de pensar, Ricardo, antes que sua consciência seja cauterizada pelo engano do pecado (Hebreus 3:13). Ainda há tempo para arrependimento e mudança de atitude. A abstinência sexual é o caminho de Deus para os solteiros, e esse estilo de vida é perfeitamente possível pelo poder do Espírito, ainda que aos olhos de outros seja a coisa mais careta e retrógrada que exista. Se você realmente pensa em casar com a Raquel e constituírem família, o melhor caminho é pararem agora de ter relações e aguardarem o dia do casamento. Vocês devem confessar a Deus o seu pecado e um ao outro, e seguir o caminho da abstinência, com a graça de Deus.

Estou à sua disposição para conversarmos pessoalmente. Traga a Raquel também. Estou orando por vocês.

Um grande abraço,

Pr. Augustus

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A conformação de sua mente: o salmo 1

D. A. Carson09 de Outubro de 2018 - Estudos Bíblicos

O trecho abaixo foi retirado do livro Encontro com a Palavra de Deus, de D.A. Carson, Editora Fiel.

Mais uma vez, é importante refletir sobre o conteúdo do Salmo 1 em nossa caminhada cristã. Assim, alguns questionamentos são feitos: Esse Salmo

refere-se ao nascimento virginal? Aborda a segunda vinda de Cristo? É uma profecia? Existe alguma outra passagem da Bíblia que nos auxilie a entendê-lo? E, por derradeiro, indaga-se: Como esse Salmo foi originalmente estruturado? A fim de respondermos a essas perguntas e observarmos os aspectos do Salmo 1, é necessário lê-lo com muita atenção:

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido.

Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa. Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

(Salmos 1.1–6)
O conteúdo abordado no Salmo 1

I – No primeiro versículo, o conteúdo é expresso em termos negativos.

II – No versículo 2, o justo é descrito positivamente por suas ações.

III – No versículo 3, o justo é descrito sob um aspecto metafórico.

IV – No versículo 4, o perverso nos é descrito.

V – No versículo 5, a descrição do perverso é mantida.

VI – No versículo 6, contrastam-se o caminho do justo e o caminho do ímpio.

Comecemos pelo versículo primeiro. Esse versículo descreve, em minúcias, aquilo que o justo não faz e, em contrapartida, a forma como o ímpio age.

Nesse contexto, depreende-se que a forma de agir do justo inclui desacelerar seu ritmo ao longo da vida: “Bem-aventurado aquele que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores e não se assenta na roda dos escarnecedores”. Conclui-se, assim, que o perverso começa por andar e colher maus conselhos de outros ímpios.

Em outras palavras, é muito importante escolher aquele a quem você ouve. Isso porque, se seus melhores amigos têm estruturas mentais que ofendem o evangelho, no final das contas isso o afetará sobremaneira. Pois, a partir do momento em que alguém começa a andar com os ímpios, detém-se em seus caminhos de pecado. Assim, aos poucos, o estilo de vida dessas pessoas vai-se tornando seu próprio estilo de vida. Você começa ouvindo maus conselhos e, logo em seguida, contrai maus hábitos. E, se você permanecer nesse caminho, descerá a um terceiro nível, no qual passa a tomar assento entre os escarnecedores. Sentado em uma poltrona confortável, com seus pés para cima e olhando através de seu nariz empinado de autossuficiência, começa a julgar os cristãos, denominando-os ignorantes, tolos e estúpidos. O grande pregador batista do século XIX afirma que é nesse ponto que o homem recebe seu diploma de mestrado em inutilidade e o de doutorado em maldição. Assim acaba o primeiro verso do livro de Salmos sobre como o justo não age.

Passamos à próxima questão: Como, então, o justo deve agir? E essa indagação nos leva ao versículo 2, no qual o salmista descreve, em termos afirmativos, o que o justo faz. Poderíamos, por intuição, supor que o conteúdo em termos afirmativos seria uma ideia diretamente oposta àquilo que o justo não faz. Dessa forma, seria natural lermos algo parecido com “o justo anda no conselho dos sábios, detém-se no caminho dos retos de coração e se assenta na roda dos que louvam”.Porém, não foi assim que o salmista descreveu as ações do justo. Na verdade, o que ele diz no verso 2 é: “Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite”.

Em outras palavras, o justo valoriza a Palavra de Deus. Como se diz: “Você não é aquilo que pensa, mas o que você pensa, isso é quem você é”. Portanto, não há nada mais importante do que mergulhar na Palavra e meditar nela dia e noite.

Hoje, em geral, todo mundo tem um computador, um tablet ou smartphone. Mas, não importa qual seja o seu aparelho eletrônico com acesso à internet, todos têm um mesmo slogan implícito: “lixo entra e lixo sai”. Assim, se você coloca lixo em uma máquina de compra automática, é lixo que vai sair dessa máquina. E esse mesmo princípio é verdadeiro em relação à mente humana. A pessoa justa enche sua mente com a Escritura, pois nela medita dia e noite.

O versículo 2 afirma que o justo medita nas Escrituras dia e noite. E você? Sente necessidade de meditar sobre o quê? Em uma noite insone, quando você acorda e não consegue mais dormir, para onde seus pensamentos instantaneamente vão? Talvez para as pressões do trabalho ou para os filhos? Para onde sua mente vai, instintivamente, quando você acorda de madrugada? Talvez para um filme ao qual assistiu recentemente? E perguntamos: com que frequência sua mente se volta para alguma passagem da Bíblia lida recentemente? Seus pensamentos seriam algo como um sermão sobre 1 Pedro que você ouviu na manhã anterior e, então, você começa a meditar sobre isso? Dia e noite meditando na Palavra, assim é o justo. É assim que, ao ler a Bíblia, ela transforma profundamente nossa maneira de pensar.

No primeiro versículo, vimos a maneira como o justo não age; no segundo, aquilo que o justo faz. No terceiro, veremos que a pessoa justa é descrita de forma metafórica: “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido”.

A imagem dessa árvore surge de um cenário muito comum entre aqueles que escreveram e leram o texto por muitos séculos: em Israel, a terra é semiárida. Existem muitos riachos que, na época das chuvas, correm e regam a terra, porém, durante a maior parte do ano, esses riachos secam e a terra é totalmente árida. As árvores que, na época das chuvas, ficam irrigadas e florescem passam boa parte do ano – aquela em que não há chuva – sem folhas, a ponto de parecerem estar mortas, somente voltando a parecer saudáveis quando as chuvas voltam a cair.

Assim, para que uma árvore produza frutos, é necessário mais que chuvas esporádicas; é necessário haver muito mais água. E a árvore descrita é plantada intencionalmente por Deus junto às muitas correntes de águas. Assim, mesmo que uma das correntes de água seque, isso não faz diferença para tal árvore, porque ela está irrigada por muitas correntes. O resultado disso é que, não importa o que aconteça, suas folhas estarão sempre verdes, não murcharão e sempre produzirão frutos. E, em tudo o que se fizer, haverá prosperidade.

Nesse contexto, alguns usam essa passagem bíblica para dar suporte à teologia da prosperidade. Mas, claramente, a prosperidade do Salmo em questão diz respeito aos crentes. É igualmente importante que se questione que tipo de prosperidade é essa. Assim, quando os primeiros versículos são lidos com atenção, fica claro que o Salmo escrito para crentes aborda a prosperidade relativa à retidão de coração e à justiça espiritual. Não se trata de adquirir um aparelho de ar-condicionado, de fazer uma previdência pessoal farta ou de prosperar financeiramente. E essa não é a única passagem que fala da prosperidade dos justos por meio de uma metáfora que contrasta a terra árida e a árvore plantada junto às águas. Vejamos o que os versículos 5 e 6 de Jeremias 17 dizem:

Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR! Porque será como o arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes, morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável.

Em acentuado contraste, os versículos 7 e 8 dizem:

Bendito o homem que confia no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR. Porque ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão, não se perturba, nem deixa de dar fruto.

Por conseguinte, a prosperidade vista aqui é a prosperidade espiritual que vem da confiança em Deus. Em outras palavras, diz respeito às consequências das ações dos ímpios – sequidão, solidão e frustração –, em contraste com as consequências das ações dos justos, que envolvem prosperidade da justiça e retidão. Portanto, os versículos de 1 a 3 do Salmo 1 descrevem, sucessivamente, o justo em termos negativos, em termos positivos e, por último, em termos metafóricos.

sábado, 29 de setembro de 2018

O BISCOITO DO ARREPENDIMENTO

Conta-se de um evangelista que se deparou com um sujeito que veementemente negava ser um pecador.

Ele escapulia de todas as tentativas do homem de Deus de convencê-lo de seus erros:
– Eu sou um bom pai, um bom marido, um bom vizinho, um bom cidadão. Sou honesto e trabalhador. Cumpro minhas obrigações. Não tenho do que me arrepender!

Em dado momento da conversa, o Espírito Santo sussurou no ouvido do evangelista: ” – Pergunte para ele sobre o biscoito”. Assustado, em pensamento, o crente questionou o Espírito Santo: ” – Biscoito? Que é isso meu Senhor?” E a voz do Espírito repetiu-se: ” – Obedeça-me. Pergunte-lhe sobre o biscoito”.

– Então, você não tem mesmo nenhum pecado?
– Não, sou um homem correto. Não tenho do que me arrepender!
– Bem, Deus manda-me fazer-lhe uma perguntar esquisita, eu não sei o que é, mas creio que você deve saber. O Espírito Santo de Deus pergunta: “- E o biscoito?”

Uma facada no estômago não teria lhe causado dor maior. O homem se contraiu todo, lágrimas abundantes correram por seu rosto e ele começou a soluçar:
– Bis-coito, que bis-coito?

E o evangelista repetiu a pergunta. E o homem levou outro choque, ainda maior. E soluçava mais ainda:
– Que bis-coi-to? Que bis-coi-to?

Depois que conseguiu se acalmar, contou para o evangelista que quando ele era criança sua família era muito pobre e sua mãe mantinha os biscoitos à chave, pois a provisão devia durar um mês inteiro. Mas ele sabia onde a mãe escondia a chave e a pegava escondido, comia os biscoito e tornava a colocá-la no lugar.

Um dia, desconfiada, sua mãe reuniu os filhos e “apertou-os”, tentando descobrir o que estava acontecendo. Seus irmãos juraram para ela, às lagrimas, que não tinham nada a ver com isso. E ele não só negava ter sido o autor do roubo como ainda acusava seus irmãos e os xingava de falsos e fingidos.

Anos depois, sua mãe veio a falecer e ele nunca teve coragem de confessar o seu pecado. Até aquele dia.


Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós – I João 1.10

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Sofrendo com a perda de um filho - Ryan Showalter

Deus não está longe

O sofrimento é a sua resposta específica à perda de seu filho. Ele é, de acordo com Jay Adams, “uma tristeza capaz de sacudir a vida”. Por isso, ele não deve ser visto como uma simples emoção, mas como uma reação dentro da qual há um leque de emoções. O sofrimento frequentemente age como uma barreira entre você e o mundo, isolando-o das pessoas e circunstâncias do dia a dia. A comida perde o sabor, as cores se apagam e as tarefas mais simples parecem ser obstáculos insuperáveis. E o pior de tudo, Deus parece estar distante, como se ele não estivesse com você em meio à sua nova realidade — uma que você nunca imaginaria que seria sua.

O salmista registrou a oração de um homem aflito, clamando desesperadamente a Deus em sua dificuldade.

Porque os meus dias, como fumaça, se desvanecem, e os meus ossos ardem como em fornalha. Ferido como a erva, secou-se o meu coração; até me esqueço de comer o meu pão. Os meus ossos já se apegam à pele, por causa do meu dolorido gemer (Sl 102.3-5).

Enquanto você lamenta a perda de seu filho, talvez você se identifique com essas palavras do salmista, se perguntando se Deus ouvirá o seu choro e o consolará em seu sofrimento. Talvez você sinta como se o seu coração tivesse secado e você já não fosse mais capaz de amar, pensar ou se relacionar como no passado. As Escrituras descrevem de forma precisa as emoções sinceras de um coração em sofrimento, porque Deus entende a sua dor e o seu sofrimento. Felizmente Deus não o deixa sozinho em seu sofrimento. As Escrituras também retratam Deus como aquele que responde ativamente ao sofrimento de seu povo.

Onde está Deus em seu sofrimento? Deus não está longe do aflito. Ele não se distanciou de você ou de seu sofrimento. Ele se importa profundamente com você enquanto você luta em meio à sua dor. O salmista reconhece a fidelidade de Deus mesmo em meio a uma enorme angústia: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido” (Sl 34.18). Deus não se afasta de você em seu sofrimento; pelo contrário, a Escritura promete que “perto está o Senhor de todos os que o invocam” (Sl 145.18), especialmente quando você o chama em meio às circunstâncias mais difíceis que se pode imaginar.

A tentação de duvidar da presença e do amor de Deus em meio à tragédia é forte. Talvez você esteja se perguntando se Deus se esqueceu de você ou se o seu amor por você falhou de alguma forma. Nada poderia estar mais distante da verdade do que isso. A Bíblia descreve Jesus, o Filho de Deus e segundo membro da Trindade, como um homem de dores, desprezado e rejeitado, que está familiarizado com o sofrimento (Is 53.3). Justamente quando Deus parece mais frio e distante, a Escritura nos lembra de que Jesus ficou “profundamente triste até à morte” antes de o deterem, julgarem e crucificarem (Mt 26:38).

Ele pediu para que seus discípulos vigiassem com ele enquanto orava, mas, ao invés disso, eles o abandonaram para dormirem um pouco. No entanto, Jesus não é como os seus discípulos. Ele não o abandonará quando estiver sobrecarregado de tristeza a ponto de se desesperar. Jesus, que conhece o que é ser abandonado frente ao sofrimento, nunca o deixará sozinho.

Ao invés de nos deixar sofrendo em meio à solidão, Deus vem ao nosso encontro. Jesus entrou na criação e experimentou o sofrimento, assim como você e eu, para que nós nunca sofrêssemos sozinhos. Agora nós temos a oportunidade de nos aproximar de Deus com confiança porque sabemos que ele não está alheio e distante de nós. Jesus conhece exatamente aquilo pelo qual estamos passando, porque ele voluntariamente passou pelos mesmos sofrimentos, tentações, provações e por coisas ainda piores. Jesus, ao entrar em nosso mundo e em nosso sofrimento, é qualificado de forma singular para nos oferecer ajuda e esperança quando nós mais precisamos. Por isso, ao invés de sofrermos sozinhos, em Cristo nós recebemos misericórdia e achamos graça para socorro em ocasião oportuna. (Hb 4.16).

Deus está próximo de você, pai sofredor; Deus está próximo de você, mãe sofredora. Ele insistentemente se recusa a abandoná-lo em sua dor, mas lhe oferece misericórdia, graça e a presença reconfortante daquele que também perdeu um filho. Apesar de, em seu sofrimento, ele parecer distante, a Escritura nos lembra de que ele se aproximou de você precisamente por causa do seu sofrimento. O amor e o cuidado de Deus por você não podem ser vencidos. Assim como ele foi fiel em ir ao encontro das necessidades do seu povo em suas peregrinações pelo deserto, ele também irá ao encontro das suas necessidades agora, mesmo enquanto você anda sem rumo pelo terrível deserto de sofrimento e dor.


O trecho abaixo foi retirado do livro Sofrendo com a Perda de um Filho, de Ryan Showalter, da Série Aconselhamento, Editora Fiel, lançamento de agosto de 2018.

O que significa buscar ao Senhor?

Buscando o Senhor significa buscar sua presença. "Presença" é uma tradução comum da palavra hebraica "face". Literalmente, nós devemos buscar sua "face". Mas esta é a maneira hebraica de se ter acesso a Deus. Para estar diante de sua face é estar na sua presença.

Mas não estão seus filhos sempre na sua presença? Sim e não. Sim, em dois sentidos: Primeiro, no sentido de que Deus é onipresente e, portanto, sempre perto de tudo e de todos. Ele mantém tudo que existe. Seu poder está sempre presente em sustentar e governar todas as coisas.

E, segundo, sim, ele está sempre presente com seus filhos no sentido da sua promessa da aliança a sempre estar do nosso lado e trabalhar por nós e transformar tudo para o nosso bem. "Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mateus 28:20).

Mas há um sentido em que a presença de Deus não está conosco sempre. Por esta razão, a Bíblia repetidamente nos convoca a "buscar o Senhor ... buscai a sua presença continuamente". A manifestação de Deus, consciente, presença confiável não é a nossa experiência constante. Há épocas em que nos tornamos negligentes ao Senhor e nem sequer pensamos nele e não colocamos a confiança nele e nós o encontramos "imanifestado", isto é, despercebido como grande e belo e valioso pelos olhos dos nossos corações.

Seu rosto — o brilho de seu caráter pessoal está escondido atrás da cortina de nossos desejos carnais. Esta condição está sempre pronta para nos alcançar. É por isso que nos é dito para "buscar a sua presença continuamente." Deus chama-nos a desfrutar da consciência continua de sua suprema grandiosidade e beleza e valor.

Isto acontece através da "busca". Busca contínua. Mas o que isso significa na prática? Tanto o Antigo e Novo Testamentos dizem que é um "ajuste da mente e do coração" em Deus. É a fixação consciente ou foco de atenção da nossa mente e a afeição do nosso coração em Deus.

"Disponde, pois, agora o vosso coração e vossa alma para buscardes ao Senhor vosso Deus." (1 Cronicas 22:19)

"Portanto, se já, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que que são da terra. "(Colossenses 3:1-2)

Este ajuste da mente é o oposto do acostamento mental. É uma escolha consciente para dirigir o coração para Deus. Isto é o que Paulo ora pela igreja: "Ora, o Senhor encaminhe os vossos corações na caridade de Deus e na paciência de Cristo" (2 Tessalonicenses 3:5). É um esforço consciente de nossa parte. Mas aquele esforço para buscar a Deus é um dom de Deus.

Nós não fazemos esse esforço mental e emocional para buscar a Deus porque ele está perdido. Isso faríamos para procurar uma moeda ou uma ovelha. Mas Deus não está perdido. No entanto, há sempre algo através do qual ou em torno do qual devemos ir para encontrá-lo conscientemente. Este atravessando ou passando ao redor é o que busca significa. Ele frequentemente está escondido. Velado. Precisamos ir através de mediadores e obstáculos.

Os céus proclamam a glória de Deus. Assim, podemos procurá-lo através disso. Ele se revela em sua palavra. Assim, podemos procurá-lo através disso. Ele mostra-se a nós nas evidências da graça em outras pessoas. Assim, podemos procurá-lo através disso. A busca é o esforço consciente para obter através de um meio natural ao próprio Deus—para constantemente ajustar as nossas mentes a Deus em todas as nossas experiências, para dirigir nossas mentes e corações em direção a ele através dos meios de sua revelação. Isto é o que significa buscar a Deus.

E há obstáculos intermináveis que temos que contornar a fim de vê-lo claramente, para que possamos estar na luz de sua presença. Devemos fugir toda atividade espiritualmente torpe. Devemos fugir dela e contorna-la. Está bloqueando nosso caminho.

Nós sabemos o que nos torna vitalmente sensível as aparições de Deus no mundo e na palavra. E nós sabemos o que nos entorpece e nos cega e nos faz nem mesmo se quer procurá-lo. Devemos nos afastar dessas coisas e contorná-las se quisermos ver a Deus. Isso é o que buscar a Deus envolve.

E enquanto nós direcionamos nossas mentes e corações direcionados à Deus em todas as nossas experiências, clamamos a ele. Isso também é o que buscar a ele significa.

"Buscai ao Senhor enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto" (Isaías 55:6)

"Se buscares a Deus e implorares ao Todo-Poderoso misericórdia..." (Jó 8:5)

Buscar envolve chamado e súplica. Ó Senhor, abre os meus olhos. Ó Senhor, abre a cortina da minha própria cegueira. Senhor, tem piedade e revele-se a si mesmo. Desejo muito ver a sua face.

O grande obstáculo em buscar ao Senhor é o orgulho. "No orgulho do seu rosto o ímpio não o busca (Salmos 10:4). Portanto, a humildade é essencial para buscar o Senhor.

A grande promessa para aqueles que buscam o Senhor é que ele será encontrado. "Se o buscares, ele será achado de ti." (1 Crônicas 28:9). E quando ele for encontrado, há grande recompensa. "Aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos o que o buscam" (Hebreus 11:6). O próprio Deus é a nossa maior recompensa. E quando o temos, temos tudo. Portanto, "Buscai ao Senhor e a sua força; buscai a sua presença continuamente!"

Buscando com você,

John Piper

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Bem-vinda ao seu coração.

O texto abaixo foi extraído do livro Graça Extravagante, de Barbara Duguid, da Editora Fiel.


Eu me remexia inquieta no banco da igreja, enquanto aguardava meu grande momento chegar. Pensamentos passavam rapidamente em minha mente, e meu coração batia acelerado, cheio de empolgação, conforme ouvia os murmúrios intermináveis da preletora. Eu estava interessada em apenas uma coisa, e estava difícil esperar por isso.


A preletora era uma grande amiga minha, uma jovem com quem eu fizera amizade no trabalho. Eu estava empolgada por ela ter sido convidada a dar seu testemunho na igreja. O testemunho de Heather era uma história excepcional de transformação, na qual eu tive grande participação. Quando conheci Heather, como colega de trabalho no laboratório de um grande hospital da cidade, ela era quase invisível. Falava baixo e de maneira hesitante, e suas expressões faciais eram quase sempre as mesmas e indiferentes em uma conversa. Heather andava vagarosamente, cada passo era arrastado, cada ação era feita de forma penosamente lenta, como se as tarefas mais simples da vida fossem um fardo pesado. Eu sentia pena dela. Heather era alvo de fofocas entre os funcionários, e alguns a maltratavam. Desde que se mudara para aquela cidade a fim de assumir seu trabalho, ela não tinha nenhum amigo, e sua vida parecia triste e solitária. Heather precisava de ajuda: precisava de Jesus; e, evidentemente, ela precisava de mim!


Havendo crescido em um lar de missionários, forte e entusiasta, eu sabia exatamente o que Deus queria que eu fizesse. Queria que eu amasse Heather, me tornasse sua amiga e compartilhasse com ela o evangelho. Comecei a trabalhar imediatamente. Tinha acabado de voltar para os Estados Unidos, após trabalhar como missionária na África, e era recém-casada com um homem que havia sido chamado para o ministério e estudava num seminário.


O evangelismo estava no topo da lista de coisas que eu sabia que Deus requeria de mim, e, sendo honesta, a África não tinha sido uma experiência muito boa nessa área. Eu havia trabalhado por dois anos no laboratório de um hospital, esforçando-me para testemunhar do evangelho a algumas pessoas e discipulá-las, mas sem conseguir levar ninguém ao Senhor. Na verdade, comportara-me bem mal como uma jovem missionária imatura de vinte e um anos de idade, que tinha uma suspeita irritante de que muitas pessoas boas haviam desperdiçado muito dinheiro ao investir em mim. Ninguém mais sabia que eu pensava essas coisas sobre mim mesma, mas eu era atormentada pelo meu fracasso em ser uma boa missionária. Ministrar à Heather seria minha chance de redimir minha reputação.


Heather acabou sendo um projeto ainda melhor do que eu poderia ter imaginado. Ela correspondeu maravilhosamente a todas as minhas tentativas de tornar-me sua amiga. Em pouco tempo, Heather já fazia parte da casa e começou a frequentar a igreja conosco. Quando mudei de emprego, Heather nos acompanhou e mudou-se para perto de nós e da igreja que frequentávamos. Ela fez sua confissão pública de fé e parecia ter uma nova vida bem diante de nossos olhos.


A história de Heather era muito dramática, pois envolvia todos os piores pecados que os bons cristãos não podiam sequer imaginar, pecados como promiscuidade sexual e aborto. A culpa e a vergonha haviam revestido o corpo e a vida de Heather, e ela vivia a vida no modo zumbi, perambulando em seu mundo, blindada dos olhares dos outros por um invisível e portátil caixão de silêncio. À medida que sua culpa era aliviada, seu semblante começava a mudar. Heather falava mais, ficava mais animada e começou a sorrir e a gargalhar. Após alguns anos, começou a namorar um cristão afável e decente que a pediu em casamento. Uma nova vida tomou conta dela e transformou aquela garota invisível de dentro para fora. Essa foi uma história dramática, e eu era a protagonista no palco da nova vida de Heather.


No entanto, à medida que eu ouvia a interminável narrativa de Heather, comecei a ficar irritada. Sua versão da história parecia altamente imprecisa. Ela continuava falando sobre Deus e o que ele havia feito em sua vida, mas não mencionou meu nome uma única vez. Minha irritação desabrochou em uma profunda raiva quando comecei a me perguntar se ela iria ou não mencionar meu nome. Como ela poderia explicar toda a sua história sem agradecer e dizer a todos como eu havia dado minha vida para alcançá-la com o evangelho? Ministrar à vida de Heather havia sido custoso para mim, e com certeza eu merecia algum crédito! E, além disso, aquele grupo de pessoas em particular não ficara impressionado com a minha biografia missionária. Eles não se importaram com o fato de eu ter ido para as zonas mais profundas e sombrias da África. Na verdade, não repararam de maneira alguma em mim, por isso eu precisava de uma pequena ajuda no departamento de notoriedade. A história de Heather estava chegando ao fim, e minha raiva profunda se transformou em fúria quando percebi que ela não tinha absolutamente nenhuma intenção de mencionar meu nome. Pensamentos amargos inundaram minha mente, ao passo que eu ensaiava o que diria para puni-la por sua repugnante ingratidão. Eu a odiei desesperadamente naquele momento.
Um momento de discernimento


De repente, do nada, um pensamento surgiu em minha mente: Barbara, você é uma farejadora de glória e amante de holofotes, não é? Essa história não é sua; é minha, e todo o crédito e glória pertencem a mim. Nunca em minha vida eu tivera um pensamento como esse. Não foi uma voz; foi um pensamento, mas um pensamento tão poderoso e emocionante que repentinamente me senti tomada por uma luz que me expunha à essência de minha alma.


Quatro anos antes, eu tinha ouvido palavras como essas, vindas da boca de minha colega de quarto da faculdade, quando, no campus, competíamos descaradamente pela posição de presidente de um dos grupos evangélicos de comunhão cristã. Ela tinha visto em mim coisas para as quais eu estava completamente cega e escolheu um momento na escadaria do refeitório para me bombardear. Ela me disse: “Barbara, você ama os holofotes e sempre tem de ser o centro das atenções”. Naquele dia, eu não fui detida por nenhum pensamento repentino. Ao invés disso, a ira cresceu dentro de mim como uma tempestade violenta, e dei um empurrão maldoso em minha colega que quase a fez cair escada abaixo. Não houve nenhuma luz que deteve meus pensamentos; houve apenas ódio amargo e repugnante para com uma garota que não gostava de mim e ameaçou a elevada visão que eu tinha a respeito de mim mesma.


Com Heather, porém, o caso foi completamente diferente. Senti-me como o apóstolo Paulo provavelmente se sentiu na
estrada para Damasco, quando Jesus o confrontou e lhe disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9.4). Foi como se tivesse sido jogada mentalmente ao chão e cegada por uma glória tão reluzente que eu não podia suportar. Agora o Senhor estava me perguntando: “Barbara, Barbara, por que você está roubando a minha glória?” Imaginei Jesus pregado à cruz, esmagado e sangrando, olhando para mim, conhecendo meus pensamentos e indagando-me: “Como você poderia receber crédito por aquilo que eu fiz? Você morreu pela Heather? Você lhe deu fé e vida? Abriu os olhos dela para que enxergasse?” Por um breve instante me senti profundamente condenada; e a repugnância desses pecados ameaçavam me consumir. Estava chocada e arruinada pela feiura dos meus pensamentos, uma vez que eu não tinha ideia de que era capaz de crimes tão nojentos contra Deus e contra a humanidade! Ainda que fosse verdade o tempo todo! Eu vinha pecando desse modo havia anos, pois minha colega de quarto tinha visto isso claramente muitos anos antes.


Aos poucos, entretanto, outro pensamento despontou em minha mente. Em vez de sentir desespero e rejeição, comecei a me sentir ricamente estimada. Deus não estava sequer surpreso com a minha alma que ama glória e busca atenção. Eu estava cega sobre a verdade acerca de mim mesma, mas Jesus foi pregado naquela cruz por mim, por causa desse pecado específico. Enquanto visualizei a mim mesma diante de Jesus sangrando, nu, envergonhado e exposto, eu esperava e merecia repreensão, rejeição e desapontamento da parte do meu Salvador. Mas não era isso que eu estava recebendo. Em vez disso, ele estendeu amor, compaixão e infinita paciência sobre a minha fragilidade e fraqueza. Eu me senti amada e valorizada por Deus, embora nada em mim houvesse mudado ainda. Eu era como um fariseu orgulhoso naquele momento e ainda o sou de muitas maneiras. Naquele dia, tristeza e gratidão percorreram juntas meu coração como se fossem alegres companheiras pela primeira vez. Respondi: “Senhor, perdoa-me por apressar-me em querer roubar a tua glória; verdadeiramente esta é quem eu realmente sou. Obrigada por me amar e me perdoar diante de tamanha traição”. Até aquele momento, sempre acreditei que Deus tinha sorte em me ter do lado dele. Agora, eu finalmente me via como uma inimiga amarga a quem Deus escolhera para amar e receber como uma filha preciosa. Pela primeira vez na minha vida, a graça me pareceu maravilhosa, de uma maneira completamente inesperada à luz de meu comportamento rebelde para com Deus. Muitos anos se passariam até que eu pudesse entender o que aconteceu naquele dia. O Espírito Santo estava começando a abrir meus olhos para que eu visse mais claramente a mim mesma, a fim de me libertar da escravidão do meu eu! A verdade estava começando a substituir a frustração, e o sabor da condenação começava a se tornar doce, em vez de simplesmente amargo e humilhante.


No entanto, esses pensamentos bons e verdadeiros ficaram para um momento posterior, pois vergonha e humilhação reinaram naquela noite em particular, enquanto minha compreensão do amor paciente de Deus desapareceu. Minha companheira de quarto estava certa a meu respeito, e eu estava envergonhada. Como pude não perceber? Como pôde uma garota cristã de uma família com forte tradição missionária ser tão egoísta em busca de glória pessoal? Como fui capaz de tamanho ódio para com pessoas que eram meus irmãos e irmãs em Cristo? Como pude ser assim tão pecadora, mesmo sendo cristã há mais de vinte anos? Que sujeira era essa que brotava de mim, e como eu sobreviveria a ela?

Tu És Real

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